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São esquemas conceptuais configurados de forma mais abstrata. De acordo com Salomão (1999), boa parte das interpretações dependem do "acesso a expectativas bastante desencarnadas e por isso muito mais flexíveis em suas aplicações". A esse tipo de estrutura a autora chama: esquemas genéricos. Estruturam experiências mais ou menos concretas (incluindo-se aí os esquemas imagéticos). Para melhor compreendê-los, pode-se pensar em uma forma de “apreensão desencarnada”, como exemplifica Salomão (1999), com “ir ao supermercado”: através de expectativas cada vez mais genéricas de um contexto específico, o falante pode estruturar esquemas conceptuais de “ir ao Carrefour de Juiz de Fora”, “ir ao Carrefour”, “ir ao supermercado”.

Esquema e memória Editar

Para investigar a maneira como elementos culturais passam de sociedade a sociedade e de pessoa a pessoa, Bartlett (1932) apresentou um assunto através de um conto extraído de uma tradicição cultural estranha aos participantes. Após ler o conto várias vezes, um dos participantes foi convidado a reproduzi-lo minutos mais tarde. Em seguida, a partir dessa apresentação, outra pessoa, após alguns minutos, teria que reproduzi-lo. Bartlett constatou que alguns dos detalhes do conto original foram omitidos no decorrer de apenas algumas reproduções. Curiosamente, os dados omitidos foram aqueles que não apresentavam homólogos na cultura dos participantes. Dessa forma, Bartlett concluiu que as histórias tendem a ser despojadas de suas características individualizantes à medida que são reproduzidas.

Quando os participantes memorizam histórias que lhes são contadas há algum tempo, a memória tende a acionar informações típicas. Essa constatação tem levado os pesquisadores a concluir que memorizar histórias é um processo essencialmente reconstrutivo no sentido de que os esquemas genéricos guiam a pesquisa, a análise e a avaliação dos traços de uma memória específica. Vale observar que, por esquecermos elementos que são incompatíveis com a nossa tradição cultural, os detalhes das histórias, que são omitidos, são substituídos com características estereotipadas correntes no local e no tempo em que são re-contadas.

Em outras palavras, os episódios são lembrados em termos de esquemas genéricos e suas representações são sistematicamente desviadas ou alteradas de acordo com esses esquemas e as pessoas sistematicamente reconstruem seu passado de modo a caber em seu esquema de auto-imagem atualizado. Além disso, quando é feita uma tentativa para se lembrar de detalhes que não estão disponíveis nessa representação esquemática, as pessoas podem tentar reconstruir os dados em falta utilizando processos de inferência de esquemas baseados no momento da lembrança (Bartlett, 1932; Neisser, 1967).

Metáfora, esquema e cultura Editar

Schrödera (2008) demonstra que "a metáfora constitui um esquema genérico que é preenchido por cada cultura que dele dispõe em congruência com essa metáfora primária". Nesse sentido, o esquema genérico recebe um conteúdo cultural único em um nível específico. O autor ilustra isso com a metáfora primária A PESSOA ZANGADA É UM CONTAINER COM PRESSÃO, que, em japonês, é RAIVA ESTÁ NA HARA (ESTÔMAGO). Ele explica que, em chinês, tal metáfora se dá de forma que a substância do container seja imaginada como qui, uma energia que perpassa o corpo. Por isso, a substância não é um líquido como em inglês, mas sim, um gás, ou seja, um conceito que foi rotinizado na história, filosofia e medicina chinesas. O autor comenta que, em zulu, há as metáforas RAIVA/DESEJO É FOME, RAIVA É NO CORAÇÃO e RAIVA É UMA FORÇA NATURAL para o conceito raiva. Em vez de canalizar sua raiva em direção a um alvo específico – em geral, a pessoa que causou a raiva –, elas respondem de forma menos direcionada e comportam-se de forma agressiva diante de qualquer pessoa. Além disso, o envolvimento do coração na metáfora RAIVA É NO CORAÇÃO recorre a um local menos comum em línguas ocidentais. Quando a metáfora do CORAÇÃO é usada em inglês, ela é associada a amor. Em zulu, ela é aplicada para denominar o local de vários estados, por exemplo, paciência e impaciência, tolerância e intolerância etc. Esses magníficos exemplos apresentados pelo autor ilustram como uma metáfora no nível genérico torna-se uma metáfora específica em dependência da respectiva cultura.

Acreditamos que, com base no que foi apresentado até aqui sobre a noção de esquema genérico, seja possível delinearmos um conceito para o termo: Um Esquema Genérico é um modelo cognitivo estável constituído através do processo de filtragem de informações, com base na perspectiva cultural de cada pessoa (ou agrupamento social). É por meio desse tipo de esquematização, também, que focalizamos (e selecionamos) os itens que comporão uma determinada integração conceptual.


Referências Editar

  • BARTTLET, F. C. Remembering: A study in experimental and social psychology. Cambridge: Cambridge University Press, 1932.
  • NEISSER, U. Cognitive psychology. New York: Appleton-Century-Crofts, 1967.
  • SALOMÃO, M.M.O processo cognitivo da mesclagem na análise lingüística do discurso. Projeto Integrado de Pesquisa. Juiz de Fora: UFJF/ UERJ/ UFRJ, 1999 (mimeo.).
  • SCHRÖDER,U. A. DA TEORIA COGNITIVA A UMA TEORIA MAIS DINÂMICA,CULTURAL E SOCIOCOGNITIVA DA METÁFORA. São Paulo: Revista Alfa, 52: 39-56 , 2008.

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